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OPINIÃO - Importar tilápia é desmoronar toda uma cadeia quase consolidada

OPINIÃO - Importar tilápia é desmoronar toda uma cadeia quase consolidada

Data de Publicação: 18 de outubro de 2023 14:48:00 Pois bem! É um castelo de trabalho e sonhos que vem sendo construído ao longo de décadas. A entrada da tilápia do Vietnã ou de qualquer outro país vai ser a destruição desta grande obra e a reconstrução será muito difícil #tilápia #importação de tilápia #tilápia do Vietnã

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Por Antônio Oliveira

A analogia que vou fazer a seguir é um pouco infantil mas reflete, de uma forma mais clara, a situação alvo deste artigo.

Vamos lá.

Em determinada praia crianças se unem na construção de um belo e grande castelo de areia. Quando esta obra está quase pronta, eis que vem outro grupo de crianças e investe contra aquela construção, após longas horas de trabalho e dedicação.

Refiro-me à possibilidade, conforme corre nos corredores da piscicultura e no Planalto Central, da importação da tilápia produzida no Vietnam para abastecer o Brasil. A conversa corre de boca em boca após o encontro do presidente Lula com primeiro-ministro do Vietnã, Pham Mihn Chinh, no Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, há uns 30 dias.

Mesmo na quarta posição no ranking mundial de produção de tilápia,
o Brasil ainda constrói esta cadeia (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Editora)

 

Ora, convenhamos e venhamos: a tilapicultura no Brasil vem sendo construída ao longo de décadas e dentro dos mais altos padrões de sanidade, sustentabilidade, tecnologia e produtividade, tornando o Brasil, atualmente, no quarto maior produtor da espécie no mundo, com a produção de 550.060 toneladas, ou seja, 63, 93% das 860.355 toneladas da produção total da piscicultura brasileira. Nos últimos anos, registra um crescimento médio anual de 5%. É colocada fresca ou congelada em poucas horas em mercados externos como Estados Unidos.

A produção de tilápia no Brasil, ainda em processo de consolidação da porteira a dentro e porteira a fora, envolve milhares de empresas e produtores – sendo 98% de pequenos produtores e gera mais de 1 milhão de empregos em praticamente quase todos os estados brasileiros. Segue todas a regras trabalhistas e tributárias brasileiras, que são bem maiores que em muitos outros países

Mais ainda não se consolidou. Há muitos gargalos de produção, genética e industrialização a serem vencidos. Mas está no caminho, precisa de políticas públicas de construção, não de destruição.

Pois bem! É um castelo de trabalho e sonhos que vem sendo construído ao longo de décadas. A entrada da tilápia do Vietnã ou de qualquer outro país vai ser a destruição desta grande obra e a reconstrução será muito difícil, principalmente levando-se em conta a falência de muitas produtoras deste peixe e a desmotivação que virá depois deste “atentado” a este importante segmento brasileiro de proteína animal.

Não custa lembrar que o custo de produção de qualquer produto em muitos países asiáticos é muito inferior ao do chamado “custo Brasil”.

Em Brasília, no âmbito dos ministérios da Pesca e Aquicultura e das Relações Exteriores esta ameaça está sendo tratada como se estivessem pisando em ovos. Na Pesca e Aquicultura, que é a pasta voltada para a produção de pescado, o ministro André de Paula, já ciente da importância da tilapicultura no Brasil, não permitiria esta bobeira. Mas a questão é de ordem presidencial, político, digamos assim, e há temor de se contrariar as relações exteriores do Palácio do Planalto – ou diretamente ao chefe do Executivo Federal.

Mas é preciso que tanto o ministro de uma pasta, quanto de outra, tenham a coragem de um tête-à-tête com o presidente Lula, alertando-o do desastre que será essa importação.

Mas é preciso, também, que a bancada envolvida com a piscicultura e com a agropecuária no Congresso Nacional também interfira contra esta ameaça.

Enquanto é tempo.

 

 

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