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OPINIÃO - A Doença de Haff e o oportunismo irresponsável

OPINIÃO - A Doença de Haff e o oportunismo irresponsável

Data de Publicação: 10 de setembro de 2021 10:34:00
“O momento é de união, de busca pela informação científica confiável.”

 

Por Antônio Oliveira

Vejo, com muita preocupação, as notícias de casos de pessoas contaminadas por uma toxina, supostamente oriundas de algumas espécies de água doce e de alguns crustáceos, principalmente o camarão. Aqui neste artigo não está expressa nenhuma afirmação acadêmica de minha parte – até mesmo porque não sou cientista -, e, muito menos, defesa de um segmento entre pesca e aquicultura em prejuízo irresponsável do outro. Os dois segmentos estão sendo prejudicados e a situação pode se agravar com reflexos negativos na produção, no comércio e consequentemente em centenas, talvez milhares de empregos que podem ser perdidos.

E o que é mais grave: a irresponsabilidade e o oportunismo de alguns atores de um segmento ao apontar o outro como fonte do tipo de contaminação em tela. O momento é de união, de busca pela informação científica confiável; a forma, às vezes sensacionalista, ou desinformada, de certos veículos de comunicação; o sensacionalismo de uma forma geral, como o caso de um prefeito do interior do Pará que decretou a proibição do consumo de certas espécies de peixes no seu município.

Casos da chamada “Doença de Haff”, ou da “Urina Preta”, voltaram à tona, no Brasil, nos últimos 12 meses na Bahia, em Pernambuco e, agora, com maior número de casos, no Amazonas. A princípio, na Bahia e em Pernambuco, atribuíram a toxina à espécie arabaiana. Já agora, no estado amazônico, às espécies pacu, tambaqui e até ao pirarucu. Muitos médicos consultados nestes estados respondem que a tal toxina pode estar presente no peixe ou crustáceo “estragado”. Como se sabe, pescados e frutos do mar se deterioram muito rápido e sua ingestão faz muito mal, podendo levar à morte. Maioria dos  consumidores destes produtos sabe disto e, portanto, segue as orientações das autoridades sanitárias na hora da compra de pescados.

Estes casos, embora raros, não são novidades nem no Brasil, nem em todo o planeta. No site da revista científica Scielo há um “Relato de Caso” publicado em 2013. O relato é de um caso de Haff, no Brasil, associado ao consumo do pacu-manteiga (Mylossoma duriventre ). Nele, os cientistas relatam que os primeiros casos da doença surgiram “no verão de 1924, (quando) médicos atuantes na região litorânea de Königsberg Haff, junto à costa do Mar Báltico, identificaram o surto de uma doença caracterizada por início súbito de grave rigidez muscular, frequentemente acompanhada de urina escura.”

O Relato acusa ainda que “entre 1934 e 1984, foram descritos outros surtos similares da doença de Haff na Suécia e na antiga União Soviética. Os primeiros dois casos relatados nos Estados Unidos ocorreram no Texas, em junho de 1984. Entre 1984 e 1996, apenas quatro outros casos foram relatados nos Estados Unidos, dois em Los Angeles e dois em San Francisco (ambas as cidades no Estado da Califórnia). Em 1997, foram relatados, nos Estados Unidos, cinco casos da doença de Haff (nos Estados da Califórnia e Missouri) em um período de 5 meses (entre março e agosto); todos os casos foram associados à ingestão da espécie Ictiobus sp. Em 2001, foram relatados mais casos nos Estados Unidos, que envolviam a ingestão de peixes de água doce pertencentes à família Cambaridae no Missouri e salmão na Carolina do Norte. Em setembro de 2010, foram relatados, na China, alguns casos de doença de Haff associada ao consumo de peixes de água doce da família Parastacidae. Em outubro de 2008, foi relatado um surto de 27 casos de doença de Haff associada com o consumo de Mylossoma duriventre (pacu-manteiga), Colossoma macropomum (tambaqui) e Piaractus brachypomus (pirapitinga), peixes do norte da região amazônica.”

Em entrevista ao jornal Diário do Nordeste, no dia primeiro deste mês, a médica infectologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirmou que “O que se sabe até agora é que é uma doença adquirida pela ingestão de peixes, camarão ou lagosta e que é causada por uma toxina, que não dá para a gente identificar macroscopicamente, isto é, não dá para identificar pelo cheiro ou pela cor, de olhar e achar que o peixe tá estragado e assim descartar a possibilidade de ingestão. Isso é um problema, porque a princípio ninguém sabe como fazer a prevenção primária”.

Ainda na sua entrevista, a infectologista lembra que “no estudo divulgado pela Eurosurveillance, a doença geralmente envolve o consumo de peixes de água doce. Dentre 15 casos reportados na pesquisa, 14 haviam ingerido peixe cozido das espécies “olho de boi’ (Seriola spp) ou “badejo” (Mycteroperca spp). A equipe de pesquisadores trabalha ainda com a hipótese de que a causa mais provável da doença seja uma toxina presente na cadeia alimentar aquática.”

Quer dizer: até o presente momento, a Ciência não tem nada conclusivo que aponte para os pescados de água doce ou de água salgada. O que se recomenda é que o consumidor tenha aqueles velhos cuidados para não comprar e consumir pescados em estado de deterioração.

Mas, o que mais me deixou estarrecido e preocupado foi um vídeo gravado e publicado pelo pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, Roger Crescêncio, no qual, de forma tendenciosa, insinua que a tal toxina que dá origem a “Doença de Haff” está presente nos peixes da pesca, não nos peixes de cultivo. Como é que um cientista, de uma instituição tão conceituada, como o é a Embrapa, pode protagonizar uma coisa desta? O vídeo é tão tendencioso e dirigido que fora gravado num restaurante supostamente especializado em peixes e com efeitos quando o pesquisador isenta o peixe de cultivo da toxina.

Com esta preocupação e na defesa da gloriosa empresa estatal de pesquisa – a qual sempre teve meu respeito e consideração -, no último dia 4, um dia após eu ter visto o vídeo, publicado, malicioso, antiético e irresponsavelmente em um grupo misto de atores da pesca e da aquicultura no WhatsApp,  eu entrei em contato, via e-mail,  com a Chefia Geral da Embrapa Amazônia Ocidental, por meio de seu Núcleo de Comunicação Organizacional (NCO), com os seguintes

questionamentos - aqui publicados por se tratar de uma conversa jornalística, ou seja, pública. E, mais uma vez, friso: não estou na defesa ou na condenação de um ou de outro setor da produção de pescados. Como jornalista da área, faço, como sempre, a defesa dos dois.

Os questionamentos:

“Att: Chefia Geral

Prezados,

Está circulando um vídeo nas redes sociais, no qual o pesquisador deste Centro, Roger Crescêncio, comenta, de forma claramente tendenciosa aos peixes de cultivo, com prejuízo a imagem dos peixes de pesca e de manejo, sobre a Doença de Haff.

 

 

(Charge, de autoria desconhecida, publicada na Internet)

 

Gostaria de questionar, para complementar uma matéria jornalística, minha, o que se segue:

1 - Ele atribui aos peixes de cultivo a doença e frisa (destaca com efeito no vídeo), que o peixe de cultivo nunca registrou esta doença, que é exclusiva de peixes do extrativismo;

2 - A forma usada para este comentário, com cunho comercial - inclusive usando uma restaurante de peixe como cenário -, é correta para um cientista opinar sobre uma questão de ciência ou de saúde?;

3 - Em que o pesquisador em questão se sustenta para fazer tal esclarecimento? Como se sabe, não há nada conclusivo, validado sobre esta doença;

4 - O vídeo, em certos casos está sendo usado por atores inescrupulosos do setor de cultivo de peixes. Ou seja, o pesquisador está a serviço da aquicultura?

5 - E ele grava este depoimento justamente num estado onde a pesca predominante  é o sustento de milhares de famílias de baixa renda.

Pelo respeito e consideração que sempre tive pela Embrapa e sua equipe de todos os centros nacionais de pesquisa, gostaria de ter meus questionamentos respondidos. Particularmente, vi uma tremenda falta de ética do pesquisador - que só acreditei que é da Embrapa, depois que vi seu nome como membro desta unidade.”

No dia 8, quatro dias após meu primeiro contato sobre o assunto, eu recebi a manifestação da Embrapa Amazônia Ocidental, por meio do supervisor do NCO,  Lúcio R. B. Cavalcanti:

“Prezado senhor Antônio Oliveira,

Ao tempo em que agradecemos seu contato, informamos que, de igual forma, nos surpreendemos com o vídeo em questão.


Tal vídeo é resultado da ação autônoma do pesquisador que o apresenta e não reflete a opinião da Embrapa sobre o assunto. Até porquê não somos o único centro que realiza pesquisas em piscicultura.


A Embrapa entende que seus pesquisadores têm total liberdade para se pronunciar sobre suas áreas de pesquisa.


Mas para fazer uso da marca Embrapa, todo e qualquer material deve passar por aprovações internas. O que, infelizmente, nesse caso, não aconteceu.


Assim sendo, temos a informar que estamos averiguando o fato e que as instâncias devidas estão cientes do ocorrido.


Novamente agradecemos o seu contato e nos colocamos à disposição para contribuir em futuras pautas.

Atenciosamente,

Lúcio R. B. Cavalcanti, Mestre em Design

Supervisor do Núcleo de Comunicação Organizacional (NCO)

Embrapa Amazônia Ocidental

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária”

Nesta quinta-feira, 9, fiz nova cobrança por uma manifestação conclusiva da empresa, recebendo a resposta seguinte:

Prezado senhor Antônio Oliveira, bom dia.

Não temos posicionamento oficial da empresa porque não fomos demandados a fazê-lo. 

Em situações como essa, quando a sede (Brasília) entende que é caso de se manifestar, ou se recebemos uma solicitação oficial para tal, há uma convocatória das Unidades afeitas ao tema e estas emitem uma Nota Técnica, em conjunto, sobre o assunto. Para esta situação, em particular, isso não aconteceu. E, ao que tudo indica, não acontecerá.

Esperamos que o senhor consiga fechar sua matéria, desejamos sucesso e renovamos nossa disponibilidade para futuras pautas.

Atenciosamente,

Lúcio R. B. Cavalcanti, Mestre em Design

Supervisor do Núcleo de Comunicação Organizacional (NCO)”

Eu discordo deste desfecho, uma vez que a situação é grave, envolve o nome da empresa, por meio de citação verbal do pesquisador em questão no vídeo e da camisa que ele usava quando gravou a peça, com a logo da Embrapa.

A Ciência não pode ser vulgar, como o foi o Dr. Roger.

Voltando ao cerne da questão:

A questão ainda é um chutômetro. Não há nada de certo e o que deve ser feito neste momento é a união dos setores de pesca e aquicultura, junto com o Ministério da Agricultura e Autoridade Sanitária nacional na emissão de uma nota de esclarecimento e reforço aos antigos cuidados na compra no armazenamento de pescados.

 

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