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ENTREVISTA - “A semana do Pescado tem sido uma iniciativa vitoriosa”, diz Itamar Rocha, presidente da ABCC

ENTREVISTA - “A semana do Pescado tem sido uma iniciativa vitoriosa”, diz Itamar Rocha, presidente da ABCC

Data de Publicação: 25 de agosto de 2021 15:34:00
Entrevista exclusiva com o presidente da Associação Brasileiro dos Criadores de Camarão (ABCC), Itamar Rocha.

 

Itamar Rocha, presidente da ABCC e da FENACAM (Foto: Ascom/ABCC - Arte: Cerrado Comunicação e Editora)

 

Por Antônio Oliveira

No Brasil, quando se fala de camarão, logo vem à mente, o litoral do Nordeste brasileiro, a maior produtora de camarão de cultivo do Brasil; quando se fala em liderança do setor, logo se lembra de Itamar Rocha, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC) e da Feira Nacional do Camarão, a internacional FENACAM.

Itamar Rocha dispensa apresentação e, se é necessário isto, haja espaço. Dispensamos, então, a publicação seu rico currículo.   Engenheiro de Pesca, dos primeiros do Brasil, ele tem uma vasta folha  de serviços prestados à carcinicultura no Brasil, por meio de atividades comerciais, consultoria, pesquisa e viagens pelo mundo buscando entender os meandros do camarão e do seu cultivo e, assim, melhorando sua produtividade e sanidade no nosso país.

Meu primeiro contato com Itamar Rocha foi em novembro de 2019, quando, cobrindo a FENACAM, em Natal (RN), acompanhei seus passos – a gente, pé-duro, deste Cerrado, gosta de aprender com o povo mais experiente das bandas por onde o Brasil começou -; aprendi muito sobre a carcinicultura, e fiz uma entrevista em vídeo com ele (clique aqui para assistir o vídeo).

O segundo contato, depois de tentar por muito tempo uma entrevista, foi agora, por ocasião da nossa programação de apoio a Semana do Pescado. Neste bate-papo, falamos de todo o processo produtivo do camarão – de cultivo e selvagem -; das  perspectivas deste crustáceo na cozinha brasileira – de A a C -; da ruptura na ABCC que culminara na criação de associação parelala, que Itamar a chama de “amiga” e, como não poderia deixar de ser, o assunto-alvo da entrevista: A Semana do Pescado.

Segue a íntegra da entrevista:

PISCISHOW & AVISULEITE – Após sair da crise provocada pela mancha branca, a carcinicultura, assim como outras atividades econômicas, enfrenta, agora, a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. O que foi pior: a primeira ou a segunda?

Itamar Rocha – Na verdade, foi a “Mancha Branca”  (WSSV), a qual afetou diretamente a perda da produção, que foi reduzida de 75.000 t (2015), para 60.000 t (2016), enquanto na pandemia (Covid-19), a produção de 2019 (90.000 t) cresceu para 112.000 t em 2020 (24,4%).

PISCISHOW & AVISULEITE – Claro que a mancha branca deixou uma grande lição para o setor. E o que esta pandemia pode deixar para esta cadeia produtiva?

Itamar Rocha – Sem dúvida alguma, foi a necessidade de melhorar a vida de prateleira do camarão cultivado, saindo do produto fresco, que precisa ser comercializado no curto espaço de 3-4 dias, para um produto processado/congelado, na forma inteira, sem cabeça ou de filé, que apropriadamente conservado, pode ser comercializado em até 24 meses. Além do fato, de que a retirada da cabeça reduz em 35%, enquanto o filé reduz em 50%, o peso do produto ofertado.

Sistema de aeração (oxigenação) de tanques de cultivo de camarão (Foto: ABCC)

 

PISCISHOW & AVISULEITE – Dr. Itamar, somos lidos por atores desta cadeia e, também, por consumidores leigos. Explica para estes como é o processo de produção do camarão de cultivo, das larvas ao frigorífico porta a fora, com destino ao consumidor.

Itamar Rocha – Todo o processo da produção do camarão marinho cultivado, se inicia na seleção dos reprodutores (35-45 gramas), passando pela fase de maturação propriamente dita, acasalamento, desova, coleta dos ovos, eclosão dos nauplios, larvicultura (nauplios V, zoeas I-III, myses III, pós-larvas PL1-P10, cultivo em berçários ou povoamento direto, (PL11-30), cultivo viveiros (60-120 dias), despesca de camarão adulto e comercialização na forma de camarão fresco e processado. Se for comercializar produtos congelados, nas embalagens devem constar as seguintes classificações: 1- (100-120; 80-100, 60-80, 60-70, 50-60, 40-50, 30-40, 20-30) peças por kg (camarão inteiro / com cabeça), ou, 2- se for camarão sem cabeça ou na forma de filé, a classificação nas embalagens será peças por libra peso (454 gramas). Por exemplo: numa embalagem com camarão 31-35, na nomenclatura internacional, a gramatura da cauda será de 13,76 gramas, ou seja, 33 peças com 13,76 gramas de peso médio.No caso do filé, para o mesma gramatura in natura (21,2 gramas), sobe-se uma classificação (36-40), o que representará 11,94 gramas por peça (filé).

PISCISHOW & AVISULEITE –Que processo garante ao camarão da aquicultura o mesmo sabor do camarão selvagem?

Itamar RochaA qualidade do camarão, independente da sua origem, é dada pelo seu correto acondicionamento, uma vez que o produto camarão natural, é inodoro, de forma que se no momento da compra, o mesmo apresentar cheiro adverso, foi fruto de uma inapropriada conservação.  Quanto ao sabor, não pode haver diferença entre uma (extrativo) ou outra origem (cultivo), mas sim pela forma do preparo e do tempero utilizado.  O resto é conversa fiada.

 

PISCISHOW & AVISULEITE – Qual é o porcentual do camarão da pesca selvagem no mercado geral da espécie em relação a produção total das duas modalidades?

Itamar Rocha- Embora as últimas estatíscas da pesca extrativa sejam de 2006, os números que temos adotados são de 25.000 t (18,24%), comparado com 112.000 t (81,76%) da produção de cultivo. Enquanto todas as importações de camarão marinho pelo Brasil, em 2020, foram apenas 80, 2 toneladas. 

 

PISCISHOW & AVISULEITE –A pesca selvagem brasileira atende as exigências internacionais de sustentabilidade?

Itamar RochaNão tenho dúvidas de que atende, não só do Japão como, inclusive, dos EUA (exigência do uso do TED-Turtle Exclude Device), embora, assim como o camarão cultivado, nos últimos 10 anos, o camarão extrativo, mudou seu foco comercial, do mercado internacional para o mercado interno.

 

PISCISHOW & AVISULEITE – A importação do camarão e a concorrência de países produtores da espécie com o Brasil – especialmente o camarão selvagem -, preocupam ou promovem prejuízos para a carcinicultura brasileira?

Itamar RochaA grande preocupação dos carcinicultores brasileiros com relação às importações, foi sempre no tocante à entrada no Brasil, de doenças, uma vez que nenhum país produtor permite importações, sem um rígido controle ou efetiva quarentena, veja o exemplo do Equador, que apesar de contar com inúmeras  doenças na sua carcinicultura, não permite importações de camarão e cistos de Artemia salina do Brasil.  Mas o Brasil, permitiu as importações de seus camarões. 

 

PISCISHOW & AVISULEITE –Qual seria a proposta da ABCC para manter o equilíbrio neste processo?

Itamar Rocha Muito simples e legal.  Cumprir a Legislação em vigor, ou seja aplicação da IN 02/2018, 

 

editada em Setembro de 2018, que inclusive, revogou a IN 14/2010, mas que mesmo assim, tanto do então presidente Dias Toffoli (Dezembro / 2018), se baseando na IN 14/2010 (revogada em Setembro de 2018), revogou a Decisão (suspensão das importações de camarões do

Equador) da então presidente Carmen Lúcia (STF), com base no parecer da Procurado Geral da República (Raquel Dodge). Da mesma forma, o atual Presidente Luiz Fux (Março /2021), do STF, suspendeu a decisão do Pleno da 6ª Turma do TRF 1ª Regiao (suspensão das importações de camarão da Argentina), também com base na IN 14/2010 (revogada em Setembro de 2018), passando por cima da IN 02/2018, que não permite importações de camarões de países que não informam sua condição sanitária à OIE.

PISCISHOW & AVISULEITE – Pesquisas, e até mesmo a demanda por camarão, apontam as águas continentais do Brasil para o cultivo de camarão e isto vem se dando de forma ainda muito lenta. O que a ABCC recomenda aos que estão investindo ou com planos para a carcinicultura litoral a fora?

Itamar RochaNa verdade, o crescimento da carcinicultura no interior do Nordeste e em outras regiões brasileiras, tem sido uma grata surpresa, embora desde o ano 2.000 a minha empresa - MCR Aquacultura - tenha introduzido e produzido o L. vannamei em rincões distantes (400 – 800 km) do mar, inclusive, em um artigo que escrevi em 2012, eu destaquei: “Não sei se o Beato Antonio Conselheiro estava certo, ao profetizar nos idos de 1877, que o sertão iria virar mar, mas o que sei é que o camarão marinho, inclusive, oriundo do Oceano Pacifico, já estava sendo cultivado em Petrolina-PE, distante 800 km do mar” !  Por o lado, tendo presente não permitir que existam diferenças entre o camarão produzido no litoral em relação ao camarão produzido em águas oligohalias do interior do Brasil, a ABCC, vem atuando fortemente no sentido de qualificação dos micros e pequenos carcinicultores localizados nos polos interioranos, através de cursos de Boas Práticas de Manejo e Medidas de Biossegurança.

 

PISCISHOW & AVISULEITE – Há quase dois anos, uma ruptura na ABCC culminou em outra associação nacional do setor. No que isto ajuda ou prejudica a carcinicultura brasileira?

Itamar RochaEvidentemente que qualquer ruptura, especialmente num setor cuja base produtiva é formada prioritariamente por micros, pequenos (75%) e médios (20%) produtores, afeta seu desenvolvimento, notadamente porque os grandes (5%), deveriam dar o norte para o crescimento setorial, pelo fato dos mesmos contarem com Laboratórios de produção de pós-larvas e Unidades de processamento da produção. No entanto, como era de esperar, até pelo envolvimento e amizade de anos de conjunta labuta, não houve maiores problemas, até porque há um entendimento de que, respeitadas as diferenças, juntos seremos mais fortes.  

 

PISCISHOW & AVISULEITE – No Brasil, principalmente em estados distantes do litoral, o camarão ainda é um alimento pouco acessível às classes sociais B e C. Como fazer para que ele seja mais popular?

Itamar RochaNa verdade, o primeiro passo será melhorar o tempo de vida de prateira, acima referido, mas também, ampliar consideravelmente a sua cadeia de distribuição, fora das redes tradicionais (supermercados e peixarias), utilizando-se do vitorioso e salutar sistema de delivery (IFOOD, UBER EATS), de forma que os preços, altamente competitivos praticados na porteira da fazenda, mesmo para produtos processados, possam chegar aos consumidores, de forma competitiva. 

 

12 - PISCISHOW & AVISULEITE – A Semana do Pescado seria um canal para isto?

Itamar Rocha – Será sim, embora acreditamos que precisaremos envolver mais parceiros, especialmente da base produtiva do camarão marinho (cultivado e extrativo), tendo presente que o Brasil, consome apenas 0,64 kg/per capita/ano) de camarão, quando, o México por exemplo, já consome 1,67 kg/per capita/ano?

PISCISHOW & AVISULEITE – De que forma os produtores e comércio do produto participarão deste evento comercial e promocional?

Itamar RochaInicialmente, tanto a ABCC como a CAMARÃO BR, apoiaram financeiramente a Campanha Promocional da Semana do Pescado, mas acreditamos que o setor, através da ABCC e da CAMARÃO BR, incluindo suas várias Associações Estaduais e Cooperativas de Produtores, bem utilizando suas multiplas redes sociais, darão uma atenção especial à Semana do Pescado, notadamente na divulgação de receitas especiais e de informações sobre os benefícios que os camarões trazen para o fortalecimento da imunidade dos seus consumidores.    

PISCISHOW & AVISULEITE – Na sua opinião, qual é a importância da Semana do Pescado para o consumidor brasileiro?

 

Itamar Rocha – Consideramos que Semana do Pescado tem sido uma iniciativa vitoriosa, pois cada ano tem conseguido novos parceiros e adesões das mais variadas origens, desde o setor produtor ao setor varejista ao consumidor final, pelo que não temos dúvidas do seu sucesso e notadamente, da sua importância, que acreditamos só terá a crescer nas próximas edições.

PISCISHOW & AVISULEITE – A Associação está segura quanto a realização da FENACAM em novembro deste ano?

Sistema de cultivo de camarão em tanques suspensos (Foto: ABCC)

 

Itamar Rocha – Está sim, inclusive já concluímos a programação das palestra do XVII Simpósio Internacional de Carcinicultura (20 palestrantes) e do XIV Simpósio Internacional de Aquicultura (20 palestrantes), bem como, estamos confiantes de que a vitoriosa XVII Feira Internacional de Aquicultura, será mais uma vez, um diferencial qualitativo para os eventos FENACAM.

Além disso, como o evento será presencial, claro com todos vacinados e respeitando as recomendações das autoridades sanitárias, estadual e federal, já não temos dúvidas do seu sucesso, especialmente por estarmos contando com as grandes e médias empresas, nacionais e internacionais, detentoras de tecnologias, que além da participação na Feira de Aquicultura, estão contribuindo com palestrantes e patrocínios, sem falar, no importante apoio dos governos federal e estadual e do SEBRAE, BNB, FIERN, FECOMÉRCIO, SENAR/FAERN.

 

PISCISHOW & AVISULEITE – Presidente, agradecemos por esta entrevista e deixamos o espaço necessário para outras informações que ache por bem fazer aos nossos leitores.

Itamar RochaEu gostaria de colocar para os parceiros do setor pesqueiro brasileiro e naturalmente para os participantes da PISCISHOW & AVISULEITE, que o Brasil detém todas as condições para se tornar um líder na produção de pescado de origem aquícola, bastando simplesmente dispensar uma atenção especial a esse importante e alvissareiro segmento produtivo. Basta ver que a China, maior produtor e exportador mundial de pescado, já ocupa a 3ª posição dentre os importadores mundiais de pescado, cujo consumo per capita já é da ordem de 45kg/ano, mas seu desejo de consumo é de 60kg/per capita/ano. Ou seja, para atender apenas o apetite dos chineses o mundo precisaria produzir 20 milhões de toneladas de pescado por ano. Portanto, vamos acordar o Brasil, que embora não esteja mais deitado em berço explêndido, continua adormecido, deixando escapar oprtunidades de fortalecer sua socioeconomia primária e criar vida com dignidade no meio rural, inclusive com a reversão do êxodo rural que tanto afetou a vida das cidades e o crescimento da violência urbana.  

 

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