TILÁPIA – Universidade Estadual de Maringá contesta Nota Técnica da SBI – Piscishow&Avisuleite TILÁPIA – Universidade Estadual de Maringá contesta Nota Técnica da SBI – Piscishow&Avisuleite

Piscicultura

TILÁPIA – Universidade Estadual de Maringá contesta Nota Técnica da SBI

Publicado em 13/01/2018

Por Antônio Oliveira

 

Processo de vacinação, uma a uma, de juvenis de tilápia (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

– É uma falsa afirmação que as espécies exóticas, principalmente, a tilápia do Nilo, tenha sido a causadora da redução ou aumento da diversidade específica das espécies selvagens.

A declaração, feita em Nota Técnica levada à público nesta sexta-feira, 12, é da Universidade Estadual de Maringá (UEM), por meio de seu Departamento de Zootecnia Grupo de Pesquisa em Manejo, Melhoramento Genética e Biologia Molecular em Piscicultura de Água Doce (PEIXEGEN). A Nota é assinada por seu associado, Prof. Dr. Ricardo Pereira Ribeiro e foi elaborada em resposta a Nota Técnica da Sociedade Brasileira de Ictiologia, publicada no início deste mês,  assinada por Ângelo Antônio Agostinho, Dr. Professor Titular Aposentado da Universidade Estadual de Maringá, Prof. Voluntário do Progr. Pós- Graduação em Ecologia Ambiental Aquática  Continentais; Dr Oscar Barroso Vitorino,  Biólogo/Analista no Instituto Natureza do Tocantins Naturatins) e  Fernando Mayer Pelicice, Dr. Professor da Universidade Federal do Tocantins (Unitins). A Nota, em 13 páginas, é praticamente um parecer técnico contra o cultivo de peixes exóticos, especialmente a tilápia, em lagos de Usinas Hidroelétricas (UHE) de muitas regiões brasileiras e a pretensão de outros estados, como o Tocantins, Pará e Maranhão – estados amazônicos – em inserir esta cultura em suas águas públicas.

– Parece que esquecem o que eles escrevem – disse-me, na manhã desta sábado, 13, o Professor Ricardo Pereira.

Ele cita, entre outros “esquecimentos”:

Laboratório e eclosão e sexagem dos animais (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

[“Observem bem o que os autores afirmaram: “Introduções envolvendo espécies importadas de outros continentes têm, então, grande probabilidade de insucesso, pois cada espécie tem uma história evolutiva particular, geralmente com forte associação às condições ambientais de seu local de origem, podendo ser insuperáveis as restrições ambientais exercidas pelo habitat  receptor.”

Ainda os mesmos autores: Nas ocasiões em que as espécies introduzidas superam todas as barreiras e conseguem estabelecimento efetivo, as consequências sobre a fauna nativa são diversas, de difícil mensuração e, na maioria das vezes, imprevisíveis (MACK; SIMBERLOFF; LONSDALE; EVANS; CLOUT; BAZZAZ, 2000; RODRÍGUEZ, 2001). O resultado varia do simples estabelecimento da população introduzida à completa dominância da comunidade, podendo incluir, entre os diversos efeitos, a redução populacional de espécies nativas e mesmo extinções nas comunidades receptoras. Contudo, mesmo que uma dada espécie ultrapasse esses obstáculos, ela deverá vencer também o desafio de se integrar à comunidade nativa. Nessa etapa, a espécie deve interagir com a comunidade local através de mudanças comportamentais e de seu nicho, de maneira a assegurar sua existência a longo prazo – em escala evolutiva, o que também pode promover mais alterações na comunidade e no ambiente.”

Por fim os autores afirmam sobre a espécie Tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) que esta espécie, apesar de ter sido introduzida no Brasil após 1950, especialmente por Programas Governamentais, primeiramente para cultivo, depois para povoamento, com o objetivo de aumento de rendimento pesqueiro, especialmente em reservatórios no Nordeste, seus estudos destacam que elas foram introduzidas em 77 reservatórios, porém sua captura foi detectada em apenas 20% destes reservatórios e… “Apesar da elevada ocorrência, pouco se sabe a respeito do real estabelecimento de populações viáveis em alguns desses reservatórios, visto que os exemplares capturados podem ser provenientes de escapes de tanques de cultivo. Destaque para alguns reservatórios localizados no rio Tietê, os quais vêm apresentando, em períodos recentes, elevado rendimento pesqueiro de tilápias. Mesmo assim, vale destacar que, considerando os 77 reservatórios investigados, T. rendalli esteve entre as espécies dominantes em apenas um, enquanto que O. niloticus esteve nessa condição somente na região Nordeste.”

Os autores falam também de quais tipos de espécies causam mais riscos nas introduções e neste temas afirmam o seguinte: … “Os impactos de introduções têm maior probabilidade de serem deletérios quando a espécie introduzida é carnívora ou piscívora (MOYLE; CECH, Jr., 1996). Pela sua elevada agressividade, essas espécies são de instalação mais provável, e seus efeitos são reconhecidos como um dos mecanismos biológicos de maior poder de transformação nas comunidades nativas. Assim, além da virtual impossibilidade de se eliminar seletivamente um peixe introduzido no sistema, seus efeitos são extremos no ambiente e, na eventualidade de um processo de extinção de espécies, este é irreversível (KAUFMAN, 1992; SIMBERLOFF, 2003).

Em geral, as espécies carnívoras têm a predileção nos programas de estocagem sob o argumento de sua adequação à pesca esportiva e no aproveitamento de biomassa em ambientes dominados por espécies de menor porte. Porém, a longo prazo, as inúmeras consequências negativas sobre a comunidade residente terminam por empobrecer o sistema de pesca, já que proporcionam a perda de recursos aquáticos nativos e, portanto, os serviços prestados pelos ecossistemas. Esse grupo de espécies é, portanto, merecedor de maiores cuidados, tanto na prevenção de sua introdução quanto nos programas de erradicação.”]

Ricardo Pereira contesta a tese supra citada:

Ricardo Pereira: “Parece que eles esquecem do que escrevem” (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

“A tilápia espécie Oreochromis nilóticos é uma espécie Fitoplanctófaga e no cativeiro possui tendência a onívoria, logo seu hábito alimentar não é carnívoro e nem piscívoro. Portanto, segundo o próprio Agostinho, tem pouca probabilidade de sucesso na colonização dos ambientes naturais. A partir dos argumentos acima, os eventuais escapes, que devem ser controlados pela evolução das técnicas de manejo e equipamentos de contenção nos sistemas de cultivos e mitigados através do aprimoramento de técnicas de masculinização, entre outras, deixa de ser uma grande preocupação e pode ser mitigado e minimizado.

Na Nota Técnica (da SBI), os autores citam que “É comum que pequenos cursos de água de bacias com intensa atividade de piscicultura sejam compostos majoritariamente por tilápias (Fernandes et al. 2003)”, porém estes autores encontraram que 11 espécies, 1594 indivíduos e apenas duas espécies exóticas, sendo que 14% destas capturas eram de tilápias e concluíram o seguinte: “Não foram observadas atividades reprodutivas nas espécies exóticas no riacho amostrado. O insucesso reprodutivo das espécies introduzidas no ambiente natural está no fato de que as progênies deste animais não apresentam características genéticas para as situações básicas de sobrevivência. Como, por exemplo, estratégias anti-predação”.

Porém, continuam relatando que isto pode ocorrer ao longo das gerações através de modificações genéticas. Neste artigo, também encontra-se como co-autor o eminente Dr. Agostinho. Na Nota Técnica, os autores ainda afirmam a capacidade das tilápias de ocuparem vários reservatórios citando alguns autores, como segue:

“literatura especializada apresenta vários casos de reservatórios onde ela apresentou um crescimento populacional exponencial (Minte-Veras, Petrere Jr. 2002; Agostinho et al. 2007)”.

Minte- Veras trabalhou na Represa Billings em São Paulo e afirmou o seguinte sobre a tilápia:

“Neste reservatório a Tilápia do Nilo está em processo de naturalização”. “No Nordeste do Brasil as tilápias são dominantes em pequenos reservatórios, porém na bacia do Paraná as tilápias não são comuns (Agostinho e Petrere, 1993)”. Segue afirmando que em reservatórios urbanos há altas incidências de tilápias e isto se deve a uma combinação de fatores como: alto potencial reprodutivo, capacidade de consumir o plâncton do reservatório, alta resistência a baixa concentração de oxigênio dissolvido, tolerância a contaminantes químicos e baixa pressão de predação, características comuns nestes tipos de reservatórios urbanos altamente impactados e praticamente vazios do ponto de vista ictiológico (grifo do autor).

O Lago de Itaipu produz tilápias há mais de 20 anos (Foto: Divulgação)

Mais uma vez a informação tem duas vertentes, é importante conhecê-la de maneira completa e não parcialmente. Os autores citam o trabalho de Bittencourt et al.(2014) como caso de sucesso da tilápia como invasora e colonizadora em um igarapé na região amazônica, porém este trabalho foi conduzido em uma lagoa deste igarapé, dentro do município de Macapá- AM, Brasil, portanto um igarapé urbano, rico em material orgânico e sem a presença dos grandes predadores nativos. Nas citações de introdução de fauna acompanhante, apenas o trabalho de Silva e Roche, 2017, supõe, sem provas, que este organismo possa ter sido introduzido pela tilápia, no trabalho de Zago et al. (2014).

A  Nota Técnica (da SBI) indica a introdução de fauna acompanhante e o artigo trata de incidência de ectoparasitas em tilápias cultivadas em tanques redes em um reservatório no Brasil, não se refere à introdução de fauna acompanhante.

Por fim a citação de Orsi a Agostinho (1999), trata-se de uma comunicação científica na qual fez-se uma estimativa de escapes em pisciculturas na região norte do Paraná.

Pergunto, como se faz estimativa de escapes? Nesta comunicação não há metodologia científica. Portanto não pode ser reproduzida por outros pesquisadores….”

A tilápia em tanques redes e os cruzamentos

Sobre o “estrago” que a tilápia teria causado ao meio ambiente a possibilidade de hibridação, Ricardo Pereira argumenta:

“Nota Técnica emitida em nome da Sociedade Brasileira de Icitiologia demonstra a importância da Aquicultura para a produção de alimentos e segurança alimentar da crescente população mundial e afirmam ainda os impactos que a sobrepesca tem causado aos estoques naturais de peixes, demonstrando que o fomento à Aquicultura é o caminho adequado para suprir esta demanda.

Os dados que existem demonstram exatamente o contrário, veja o gráfico abaixo, que demonstra que informações sobre estudos realizados nos últimos 20 anos, os quais documentados em relatórios científicos contratados pelas próprias concessionárias de Energia Hidrelétrica, tanto estatais quanto privadas como COPEL, ITAIPU BINACIONAL, DUKE ENERGY, mostram que a participação das espécies exóticas, com relação às selvagens representa índices de ocupação inferiores aos 3% (Figura 01).

Portanto, não há que se dizer que esta espécie pode causar algum desastre ecológico ou alguma epidemia de espécies invasoras, pois estes dados citados não deixam dúvidas, pois a extinção das espécies nativas está muito mais relacionado à alterações ambientais, poluição e sobrepesca.

Estes estudos são assinados, em boa parte, pelos mesmos pesquisadores citados na referida Nota. Desse modo, toda a retórica sobre as possíveis técnicas de cultivo 100% machos caem por terra, pois os dados científicos demonstram que mesmo com as possíveis falhas na sexagem, não têm causado nenhum impacto nos corpos aquáticos onde a tilápia já está presente.

Os argumentos descritos no documento, caracterizam as estratégias da tilápia e enfatiza a falta de estudos sobre seu verdadeiro potencial modificador ambiental.

Ângelo Agostinho: “A expansão da tilapicultura causará efeitos socioambientais negativos ao país” (Foto: Divulgação)

Novamente apresentamos dados científicos que demonstram o contrário: Ainda, de autoria do Dr. Angelo Agostinho, trabalho publicado na Revista UNIMAR 15 (suplemento) 175-189,1993, “AVALIAÇÃO REPRODUTIVA DA COMUNIDADE DE PEIXES DOS PRIMEIROS QUILOMETROS A JUSANTE DO RESERVATÓRIO DE ITAIPU (e.g http://www.academia Edu/463058/list_of_publications), mostra que as espécies que habitam as regiões litorâneas, “não favorecem a produção de peixes que utilizam a região, em razão da escassez de abrigo, reduzida zona litorânea e a elevada transparência da água, além das flutuações nas condições limnológicas ligadas aos frequentes pulsos de vazão, podem ser razões pela não ocupação da área pelas formas jovens da maioria das espécies”.

Por analogia aplica-se este princípio a outras espécies que possuem hábitos reprodutivos similares, tais como a espécie tilápia do Nilo, que reproduz em áreas com baixas profundidades, principalmente nas regiões litorâneas. Por isso é que esta espécie tem seu poder reprodutivo limitada, nos reservatórios, sem levar em consideração as competições e predação realizadas pelas espécies selvagens, tais como: bagres, piranhas, traíras, dourados cachorro etc.

Enfatizamos que o mesmo ocorre similarmente na maioria dos reservatórios brasileiros (Figura 01). Hsieh et al., 2006 e Fao, 2016, enfatizam que, em todo mundo, as atividades de pesca têm e devem ser substituídas por atividades de aquicultura, por ser mais sustentável e possibilitar a geração de emprego e renda e segurança social e alimentar, pois a franca expansão da produção de pescado via aquicultura, integrante da cadeia produtiva do agronegócio (Agostinho et al., 2007), e de outro, a “estabilização” da produtividade dos estoques pesqueiros, porém, seguindo para a sua depleção.

Relatos oficiais da Fao (2016) demostram que a aquicultura é responsável por mais de 50% da produção de alimento mundial, equivalente a 16% de toda proteína consumida pela humanidade. A produção brasileira de pescado, por sua vez, vem sendo sustentada por peixes não nativos, como tilápias, carpas, catfish, híbridos de espécies de peixes nativas.

Num estudo de caso no reservatório de ITAIPU, constatou-se que a tilápia (Oreochromis niloticus) está presente no reservatório e tributários (Nota Técnica nº31/2013 GBA/SBF/MMA).

De acordo com o Segundo o Plano Nacional de Recursos Hídricos, Caderno da Região Hidrográfica do Paraná (2006), o reservatório de ITAIPU está localizado na Unidade Hidrográfica Paraná (sub-1), Paraná 3 (sub-2).

No estado do Paraná, faz parte de 01 das 16 bacias que compõem a base hidrográfica de gestão, de acordo com este mesmo Plano, o Estado do Paraná em 2005, possuía 90% da produção total de peixes dedicada ao cultivo da tilápia, com cerca de 5.000 piscicultores que realizam a produção de peixes em escala comercial, dos quais aproximadamente são autorizadas, perfazendo até a presente data, 940 outorgas para o uso de águas com respectivas 1150 licenças ambientais, para a finalidade relacionada à piscicultura. Destes, destacam-se sendo para a Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3), onde o reservatório está localizado 50 % concentram-se a maioria dos piscicultores do Estado do Paraná (Maranhão 2013).

Esta atividade de produção empresarial de tilápias nesta Bacia e em todo o Paraná está registrada desde a década de 80 (Nota Técnica MMA nº31/2013).

Na Figura 02, é possível verificar as ocorrências em locais do reservatório de ITAIPU próximo de pisciculturas. O Parecer Técnico do IAP (Maranhão 2013) demonstra que: ‘Em diversas regiões do reservatório existem lagoas marginais onde ocasionalmente, por motivo da oscilação do nível do reservatório, há a necessidade de intervenção para salvamento de ictiofauna (por meio de despesca utilizando rede de arrasto).

O atendimento destes eventos revelou a presença de exemplares de tilápia com pesos superiores acima de 20 gramas em 100% das lagoas manejadas. A ocorrência dos escapes também foi confirmada pelo Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais – Instituto GIA (Boeger e Ribeiro, 2011). Ressaltam os autores que neste projeto foi realizado o mapeamento genético das linhagens das pisciculturas da região e dos peixes capturados no reservatório (Figura 03), que além de confirmarem a origem das tilápias, também evidenciou que não há cruzamentos com peixes residentes do reservatório de ITAIPU.

Este Grupo coordenado pelos pesquisadores Boeger e Ribeiro, 2010, também citados por Maranhão (2013), modelaram a distribuição potencial da O. niloticus. Ao final, esses dados subsidiaram a elaboração de uma matriz de risco do estabelecimento de populações de tilápia nos sistemas fluviais estudados.

A pesquisa não identificou, nos dois sistemas analisados, o estabelecimento de populações autossustentáveis de O. niloticus e T. rendalli, mesmo em detrimento da constante pressão de propágulos/colonização ocorrida por mais de 40 anos.

Segundo estes autores, a análise de risco considerou as características ligadas aos processos de estabelecimento, dispersão e impacto de tilápias nos sistemas.

No reservatório de ITAIPU, o processo de Estabelecimento ficou classificado como “Risco Muito Baixo ao Moderado”; a Dispersão como “Risco Muito Baixo” e por fim, o Impacto como “Risco Muito Baixo a Baixo”.

De acordo com os autores, devido ao baixo tempo de residência, o reservatório de ITAIPU pode ser caracterizado, em seu corpo central, como um sistema lótico, que leva a manutenção da qualidade ambiental do sistema e por sua vez, um estado de resiliência ambiental ao estabelecimento das tilápias.

Conclui Maranhão (2013) que todos estes estudos sobre esta bacia do Rio Paraná, Reservatório de ITAIPU gerou uma análise Integrada: Impactos ambientais relatados em decorrência da tilápia X Características bióticas e abióticas do reservatório de Itaipu, são fatores impeditivos para o estabelecimento das tilápias: Eutrofização, aumento da turbidez e alterações de parâmetros químicos da água.

As menções de impacto descritas foram baseadas em estudos conduzidos em ambientes com condições limnológicas e hidrodinâmica diferenciadas do reservatório de ITAIPU, como o lago Paranoá, que possui uma alta pressão de uso do entorno, apresentando inclusive problemas de saneamento e distinto índice de estado trófico (IET). A análise de resultados produzidos em tributários represados do rio Paraná (rio Tietê e Paranapanema) – onde há o emprego de tanques-rede destinados a tilapicultura, há mais de uma década – não houve a confirmação de que a atividade zootécnica promove alterações significativas da qualidade de água e de seu estado trófico (Malassen et al., 2008; Ramos et al., 2008), cujos padrões são estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, Resolução nº357/2005. No reservatório de ITAIPU, de acordo com Maranhão (2013), o monitoramento da qualidade da água realizado pelo IAP, órgão do Estado responsável por essa atividade, em parceria com a ITAIPU Binacional, vem demonstrando, com base nas concentrações de clorofila a, fosfato total e transparência da água, medidos na zona eufótica, que em média, não houve alterações nos padrões dos IETs dos tributários e do corpo principal do reservatório de ITAIPU, no decorrer de 20 anos, em detrimento da presença da tilápia encontrada neste ambiente por 30 anos, descaracterizando, no lago de ITAIPU, eventos de degradação da qualidade de água em função da presença da tilápia.

A série histórica apresentada nestes estudos demonstra que a variabilidade temporal do IET no reservatório de ITAIPU é pronunciada pela variação sazonal, de maneira cíclica no decorrer dos anos.

Esse padrão nos leva a considerar que a os regimes de chuvas, temperaturas e hidrodinâmica do ecossistema em questão, são os fatores que mais influenciaram a degradação da qualidade da água.

Monitoramentos da Pesca realizados pela ITAIPU BINACIONAL e UEM e também, pelos dados estatísticos produzidos pelo monitoramento da pesca do IBAMA (Nota Técnica nº 11 COOPE/IBAMA, emitida em 13.04.2010) o qual informa que o fato do uso de reversão sexual das tilápias é um dos fatores que dificultam a colonização desta espécie devido à dificultar as reproduções indesejáveis.”

Sobre doenças

Continua o Professor Ricardo Pereira:

“Os sistemas produtivos também favorecem a sanidade e dificultam a disseminação de enfermidades, pois preconizam a adoção de medidas mitigadoras aplicáveis somente com atendimento da legislação existente – Certificação Sanitária, além da necessidade de emissão de fiscalização das unidades produtoras de alevinos destinados a aquicultura, com profissionais médicos-veterinários que monitoram permanentemente as instalações produtoras e controlam os deslocamentos por meio dos Guias de Transporte Animal (GTA).

Quanto a possibilidade de Hibridação com espécies nativas, Futuyma (2005) cita que hibridação em grupos com uma proximidade evolutiva muito pequena. Os ciclídeos nativos e africanos (tilápia) tem sua origem transcorrida em diferentes grupos monofiléticos.

Isso, segundo os autores citados já explica, em grande parte, a razão pela qual, após mais de cinco décadas à introdução da tilápia nos lagos brasileiros, não tenha ocorrido nem ao menos relatos relacionados à hibridização natural desta espécie com os ciclídeos nativos.

Os relatos acima demonstram exatamente o contrário, não se fala de riscos (Dicionário Aurélio – riscos = perigo) fala-se em avaliações de “perigos” ou “impactos” da tilápia sobre os ambientes naturais e o que se encontra são resultados onde não se pode detectar este risco ou perigo, ao contrário os dados demonstram que a nos estudos já realizados o efeito da introdução das tilápias em ambientes naturais é praticamente inócuo, seja para o ambiente, seja para as populações de peixes. Não cabe aqui ser redundante e repeti-los, pois são alguns deles já estão descritos acima”.

Conclusões finais de uma e da outra

A SBI conclui sua nota:

[“O cultivo de tilápia em águas públicas apresenta uma série de riscos à manutenção da biodiversidade e serviços ecossistêmicos brasileiros. Por isso, não deveria ser considerado como modelo de desenvolvimento econômico, principalmente em países megadiversos.

A região Neotropical abriga uma das maiores diversidade de espécies do mundo, com quase 5.000 espécies de peixes de água doce, a maior parte com potencial para uso na alimentação, entre outros.

A expansão da tilapicultura causará efeitos socioambientais negativos ao país, principalmente se considerarmos que ela se somará a uma série de outras atividades humanas de elevado impacto (Pelicice et al. 2017).

Além disso, o Brasil é signatário da Convenção da Diversidade Biológica (1992), incorporada a legislação brasileira pelo Decreto Federal 2.519, de 16 de março de 1998. Por esses documentos, o Estado brasileiro deve “impedir que se introduzam, controlar ou erradicar espécies exóticas que ameacem os ecossistemas, habitats ou espécies”.

Posteriormente, o Decreto 4.339 (22 de agosto de 2002) estabeleceu que o Estado deve “promover a prevenção, erradicação e o controle de espécies exóticas invasoras que possam afetar a biodiversidade”.

A restrição do uso desta espécie nos ambientes aquáticos aproxima o Brasil da recomendação feita pelos órgãos ambientais de outros países, como é o caso dos EUA para o qual a análise de impactos desta introdução pelo US Fish and Wildlife Service é clara (USFWS, 2011): “Impactos de O. niloticus em sua distribuição introduzida incluem eutrofização dos corpos d’água através de suas influências na comunidade planctônica, competição com peixes nativos, hibridização e, em alguns casos, redução no sucesso de pesca. O risco geral representado pela espécie é alto.”

No sistema hidrográfico do rio Tocantins, como em outros do Norte e Centro-Oeste, embora a tilápia tenha sido detectada, ela ainda não é recorrente nas capturas e não deve estar estabelecida, provavelmente devido à resistência biótica imprimida pela elevada diversidade de espécies na bacia.

Por sua vez, o aumento da pressão de propágulos pela introdução do sistema de cultivo de tanques redes deve diminuir a eficiência desta resistência em manter as populações da tilápia nilótica sob controle e tornar o cenário dos recursos pesqueiros mais preocupante, assim como ocorrido em outras bacias hidrográficas onde práticas que resultam na introdução de espécies foram amplamente realizadas como no rio Paraná (Agostinho et al. 2007).

Tendo como base o conhecimento científico disponível, pode-se concluir que a expansão do cultivo da tilápia O. niloticus em tanques redes em reservatórios brasileiros causará perturbações relevantes.

Finalização da tilápia: filetagem para o mercado (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

A aquicultura brasileira opera em baixos padrões de sustentabilidade, pois o país é continental e a fiscalização limitada. Más práticas são comuns no manejo dos sistemas, como a falta de tratamento de efluentes. Além disso, não há tecnologia segura para o confinamento dos peixes nos tanques redes, sendo os escapes universais.

Uma vez no ambiente há elevada possibilidade do estabelecimento da espécie nos reservatórios e a sua disseminação para outras áreas, com risco de impactos negativos sobre a biota regional.

Dado o exposto, conclui-se que vedar o cultivo de tilápia nilótica, O. niloticus em tanques redes em qualquer região do Brasil, especialmente nas bacias da Amazônia Legal e pantaneira, é uma decisão que deve ser motivada não apenas com base no princípio da precaução, mas pela inevitabilidade dos escapes e os riscos reais de instalação da espécie e impactos nos recursos pesqueiros”]

A UEM conclui sua nota:

“- É uma falsa afirmação que as espécies exóticas, principalmente, a tilápia do Nilo, tenha sido a causadora da redução ou aumento da diversidade especifica das espécies selvagens;

– O grande número de variáveis bióticas e abióticas associadas à falta de informações sobre o comportamento da tilápia, em ambiente similar aos lagos de Hidrelétricas de todos o país gera a necessidade de avaliar e monitorar as interações desta natureza. Portanto, toda informação é imprescindível para nortear qualquer deliberação à cerca da O. niloticus nos lagos de Hidrelétricas em especial nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil;

– Aliado a estes aspectos ambientais, devem-se considerar que os aspectos socioeconômicos são também fundamentais para uma análise integrada, pois os reservatórios de hidrelétricas apresentam-se como um dos mais importantes em relação ao potencial de produtividade pesqueira no país, tornando-se necessário a busca de novas atividades econômicas sustentáveis e viáveis, capazes de contribuir para o aumento de renda da população do entorno e consequentemente qualidade de vida; A realização de estudos técnicos sobre o cultivo da espécie nos reservatórios pode e deve ter um caráter de inovação, para propor técnicas de engenharia que envolva o uso de tanques-rede com sistemas de controle de escapes, avaliação de densidades que permitam um desempenho e higidez dos animais, o monitoramento espacial e temporal da assembleia íctica do entorno das áreas aquícolas, o desenvolvimento de dietas de baixo impacto ambiental, por meio do uso de rações de alta digestibilidade, entre outras medidas mitigadoras capazes de contribuir para geração de parâmetros técnicos, que por sua vez, possam ser utilizados como referência nacional e replicados a outras regiões do país, a exemplo de outros estudos. Por fim, os rios impactados por barragens não são mais rios e sim reservatórios, ou seja ambientes muito diferentes, sob qualquer ponto de vista, o grande impacto nas comunidades ecológicas destes ambientes já foram causados e o reuso destas águas para atividades nobres como a Aquicultura com espécies que apresentam índices zootécnicos compatíveis para viabilizar a atividade de produção é a forma mais nobre de beneficiar estas áreas e as populações impactadas.”

Observação: Para ver a íntegra das duas notas, inclusive as referências biográficas clique nos links abaixo.

Nota Técnica Tilapia – SBI

Parecer Técnico – Ricardo Janeiro 2018-1

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